Criatura · Regional

Batatão

Também conhecido(a) como Fogo-fátuo, Biatatá, Fogo corredor e Mãe-do-fogo

À noite, uma bola de fogo erra por campos e brejos nordestinos à procura de viajantes; para muitos, é alma penada sem descanso.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

Batatão é o nome que se dá, especialmente no Nordeste, àquela luz enigmática que aparece de noite em pastos, pântanos, cemitérios e beiras de estrada. De acordo com Câmara Cascudo, trata-se de uma forma regional da palavra Boitatá, nome dado à serpente de fogo citada por jesuítas e cronistas desde os anos 1500. Ao longo do tempo, a expressão indígena “mboitatá” foi sendo adaptada pela fala do povo até chegar a formas como biatatá e, por fim, batatão.

Ao se firmar no imaginário nordestino, porém, essa entidade deixou de ser vista como cobra e ganhou o formato de esfera brilhante. Essa mudança aproximou o mito das antigas crenças europeias — sobretudo portuguesas — sobre fogos-fátuos: luzes que vagam sem destino e que seriam, segundo essa tradição, almas penadas ou espíritos capazes de desorientar quem passa por ali.

Do ponto de vista científico, esse fogo tem explicação simples: é a combustão espontânea de gases liberados pela decomposição de matéria orgânica em cemitérios e áreas alagadas. A crença popular, no entanto, foi além da explicação física e tratou essas luzes como símbolos carregados de sentido, ligando-as à morte, às culpas não resolvidas e ao destino de quem já partiu.

Descrição

O Batatão costuma ser descrito como uma chama de tamanho variável — do porte de uma vela ao de uma fogueira — que se desloca rente ao solo. Pode ter tom amarelado, azulado ou vermelho, e seu comportamento é instável: em certos momentos fica parado, em outros dispara, e às vezes se parte em diversas luzes pequenas.

Quem corre dele, segundo a crença, é perseguido; quem o persegue, ao contrário, vê o fogo se afastar. Há relatos de viajantes noturnos nas estradas do sertão que juram ter sentido a luz acompanhando cada passo, numa experiência de muito pavor. Diante disso, a tradição ensina a não fugir: o certo seria rezar, ficar quieto ou se jogar de bruços no chão, esperando a luz ir embora.

Quanto à origem espiritual do fogo, há diversas explicações: seria a alma de uma criança que morreu sem batismo, de uma pessoa que pecou gravemente em vida ou de alguém enterrado sem os ritos religiosos devidos. Outra linha de relatos liga o fenômeno à vigilância de riquezas escondidas, surgindo justamente sobre pontos onde haveria ouro ou dinheiro enterrado.

Características

  • Toma a forma de chama que flutua a pouca distância do solo
  • Costuma surgir de noite, em pastos, pântanos e cemitérios
  • Foge de quem avança e persegue quem corre
  • Pode se dividir em diversas luzes pequenas
  • Associado a almas sem descanso e a crianças não batizadas
  • Em algumas versões, indica a presença de tesouros escondidos

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Sertão nordestino

Conta uma das versões mais conhecidas que o Batatão seria o espírito de uma criança que morreu antes de ser batizada, vagando pelos campos à espera de orações. Segundo essa crença, quem encontra a luz deve rezar por ela; feito isso, diz-se que a chama se apaga de vez.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

O caso do Batatão mostra bem como a população interpretou, à sua maneira, fenômenos naturais que a ciência só explicaria muito depois. As luzes avistadas em brejos e cemitérios ganharam, assim, um peso simbólico ligado à morte, ao destino das almas e à fé católica — em especial, à importância dada ao batismo e às orações pelos que já morreram.

Dessa forma, a lenda também ilustra como os mitos se deslocam e se transformam dentro do território brasileiro. Originada na figura indígena do Boitatá, documentada já nos primeiros tempos da colonização, essa crença foi mudando de forma e de nome ao longo dos séculos, até virar, no Nordeste, o Batatão — resultado de uma mistura entre tradições indígenas e portuguesas.

Curiosidades

  • Cientificamente, o fogo-fátuo resulta da queima de gases soltos durante a decomposição de matéria orgânica.
  • Para Câmara Cascudo, o Batatão nada mais é do que uma versão nordestina do mito do Boitatá.
  • Em Portugal, luzes parecidas também costumam ser associadas a almas que precisariam de orações.
  • Há até explicação física para a orientação de não correr: o movimento do ar pode levar a chama a seguir quem se desloca.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem (1876)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

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