Personagem · Conhecida em todo o país

Bicho-Papão

Também conhecido(a) como Papão, Tutu, Homem do Saco e Coca

Figura sem forma fixa usada para assustar crianças desobedientes ou que não querem dormir; chegou de Portugal e hoje é conhecida em todo o país.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

Poucas figuras do imaginário infantil são tão antigas e tão espalhadas quanto o Bicho-Papão. Seu nome vem do verbo “papar”, que significa comer na linguagem das crianças, e a ideia desse personagem já rodava por Portugal muito antes de os portugueses chegarem ao Brasil. Foram justamente os colonizadores que trouxeram, junto com as cantigas de ninar, essa ameaça usada para convencer os pequenos a dormir ou a se comportar.

Uma cantiga antiga, de raízes portuguesas, resume bem essa função: “Vai-te, Papão, vai-te embora, de cima desse telhado, deixa dormir o menino um soninho descansado”. Em várias partes do Brasil surgiram variações dessa mesma canção, o que reforça a ligação entre o Papão e a hora de colocar as crianças na cama.

Com o tempo, essa figura se misturou, em território brasileiro, a outros personagens do medo infantil, entre eles a Cuca, o Tutu e o Homem do Saco. A aparência e o jeito de agir mudam de região para região, mas a função permanece sempre a mesma: fazer a criança obedecer por medo. Não é por acaso que Câmara Cascudo o classificou dentro do grupo que batizou de “mitos de pavor infantil”.

Descrição

O Bicho-Papão se diferencia da maioria das figuras do folclore porque não tem corpo nem rosto certos — pode ganhar, na cabeça de cada criança, a forma de um bicho peludo, de uma sombra, de um monstro de olhos brilhantes ou de algo enorme escondido num canto da casa. É exatamente essa indefinição, aliás, que o torna mais temível: sem um retrato fixo, cada um imagina o Papão à sua própria maneira, de acordo com seus medos pessoais.

Segundo a tradição, ele prefere lugares escondidos e próximos do quarto: embaixo da cama, dentro do guarda-roupa, no sótão ou no porão. É lembrado quando a criança chora sem motivo, recusa comida, não quer dormir ou desobedece aos adultos — nesses momentos, era comum ouvir o aviso de que o Papão estava escutando tudo e viria buscar quem não se comportasse.

Vale destacar que, na maioria das vezes, o Bicho-Papão nem precisa aparecer de fato: a simples ameaça de que ele vai chegar já resolve. Sua força está, portanto, na imaginação de cada criança, alimentada pelas cantigas de ninar, pelos ruídos da casa à noite e pelas sombras que o escuro cria.

Características

  • Não tem aparência fixa nem forma definida
  • Serve para ameaçar crianças desobedientes ou que não dormem
  • Diz-se que se escondia debaixo da cama, no armário ou no sótão
  • Costuma ser mencionado à noite, perto da hora de dormir
  • Aparece em cantigas de ninar trazidas de Portugal
  • É conhecido em praticamente todas as regiões do país

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Todo o Brasil

Na versão mais difundida, o Papão fica à espreita sobre o telhado, esperando as crianças que resistem ao sono. É então que a mãe canta, pedindo para ele ir embora, e a criança, entre o susto e o alívio, acaba pegando no sono.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

O personagem revela como o medo funcionava, no passado, como ferramenta de educação. Usando o Papão, os adultos conseguiam impor limites, garantir que as crianças dormissem no horário certo e evitar que elas se expusessem a riscos reais. Ao mesmo tempo, nas cantigas de ninar, esse medo virava também um gesto de cuidado, já que era justamente a mãe quem afastava o Papão com sua canção.

Atualmente, educadores tendem a desaconselhar o uso de ameaças desse tipo para disciplinar crianças, e o Bicho-Papão acabou migrando mais para livros, músicas e desenhos animados do que para a disciplina do dia a dia. Mesmo assim, continua entre os personagens mais lembrados da cultura popular brasileira, unindo gerações diferentes por meio das mesmas cantigas e histórias de infância.

Curiosidades

  • A cantiga “Vai-te, Papão, vai-te embora” figura entre as mais antigas canções de ninar já registradas em língua portuguesa.
  • Outros países têm personagens parecidos, como o “boogeyman”, comum em nações de língua inglesa, e o “coco”, conhecido na Espanha e em boa parte da América Latina.
  • É comum confundir o Bicho-Papão com a Cuca, outra figura recorrente nas cantigas de ninar brasileiras.
  • Para muitos estudiosos, é justamente a ausência de uma forma fixa que explica o enorme poder de assustar do personagem.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  3. Sílvio Romero, Cantos Populares do Brasil (1883)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

Verbetes relacionados

Verbete aleatório

Personagem · Sudeste, Sul e Nordeste +

Cuca

Bruxa idosa citada em canções de ninar para convencer crianças relutantes a dormir, transformada em bruxa com cara de jacaré nas histórias de…

Personagem · Nordeste e Sudeste

Papa-Figo

Homem rico e enfermo que, segundo a crença, sequestrava crianças para devorar seu fígado e curar-se, figura de medo usada para manter os pequenos…

Criatura · Sudeste, Centro-Oeste e Sul

Pisadeira

Idosa esquelética de unhas enormes, moradora dos telhados, que pisa no peito de quem vai dormir de estômago cheio, causando a sensação de sufoco…

Criatura · Nordeste

Labatut

Monstro gigantesco do sertão nordestino, com um único olho, dentes enormes e cabelos longos, que mora no “fim do mundo” e sai à noite para devorar…

Criatura · Sudeste, Sul e Nordeste +

Lobisomem

Homem que, por destino ou feitiço, vira fera nas noites de sexta-feira e precisa correr por encruzilhadas e cemitérios antes que o dia amanheça.

Personagem · Norte, Nordeste e Sudeste +

Tupã

Força do trovão entre os povos tupi-guarani, Tupã acabou escolhido pelos jesuítas para nomear o Deus cristão e tornou-se emblema da fé indígena.