Festa / tradição · Conhecida em todo o país
Festa do Divino Espírito Santo
Também conhecido(a) como Festa do Divino, Império do Divino, Folia do Divino e Festa de Pentecostes
Celebração católica popular de Pentecostes, marcada pela coroação de um imperador, bandeiras vermelhas com a pomba, folias e comida distribuída à comunidade.
Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 4 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.
Origem
A Festa do Divino Espírito Santo surgiu em Portugal e se disseminou ainda durante a Idade Média. Conta a tradição que sua versão popular teria relação com a rainha Isabel de Aragão, chamada de Rainha Santa, que teria instituído celebrações em honra ao Espírito Santo, com coroação simbólica e partilha de alimentos com os mais necessitados. A festividade ganhou força especialmente nos Açores, região onde ainda hoje permanece bastante presente.
No território brasileiro, a celebração veio com os colonizadores e se difundiu pelas vilas da colônia, fortalecendo-se durante o ciclo do ouro, em Minas Gerais e Goiás, além de áreas de povoamento açoriano, como o litoral catarinense. No Maranhão, a tradição foi incorporada de forma particular pelas comunidades negras, originando uma versão própria em que as caixeiras do Divino — mulheres que tocam caixa — têm papel de destaque.
Com o passar do tempo, a celebração se ajustou às realidades de cada região, absorvendo músicas, pratos e personagens locais. Muitas das festas mais conhecidas atualmente ocorrem em cidades históricas, onde a programação movimenta a população durante semanas e atrai visitantes de fora.
Descrição
A celebração acontece no domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, razão pela qual a data muda todos os anos, situando-se geralmente entre maio e junho. Nas semanas que antecedem o dia principal, as folias do Divino visitam residências e propriedades rurais levando a bandeira vermelha estampada com a pomba branca, símbolo do Espírito Santo. Os foliões entoam versos de louvor, recebem doações e trazem bênçãos para as famílias, que beijam a bandeira e prendem fitas com pedidos nela.
Um dos personagens centrais da festa é o imperador, papel geralmente reservado a uma criança ou a alguém da comunidade selecionado para representar o Divino. Ele recebe coroa e cetro e segue em cortejo até a igreja, acompanhado de sua corte. Já o festeiro, encarregado de organizar e financiar parte significativa da celebração, costuma ser indicado por sorteio ou escolhido no ano anterior.
A distribuição de comida também é um traço marcante do evento. Em várias cidades, oferece-se gratuitamente à população almoços, doces, pães ou sopas, resgatando a tradição de caridade ligada à origem da festa. A programação ainda inclui missas, novenas, procissões, fincada de mastro, leilões e apresentações de congadas, moçambiques, cavalhadas e outras manifestações populares.
Características
- Bandeira vermelha estampada com a pomba branca do Espírito Santo
- Folias do Divino que visitam casas cantando e recolhendo donativos
- Coroação de um imperador ou imperatriz, geralmente crianças
- Festeiro encarregado de organizar a celebração todos os anos
- Distribuição gratuita de comida para a comunidade
- Fincada de mastro, missas, procissões e fogos de artifício
- Caixeiras do Divino no Maranhão, responsáveis por cantos e toques de caixa
Versões da história
Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:
São Paulo e Rio de Janeiro
Em localidades como São Luiz do Paraitinga, Mogi das Cruzes e Paraty, a celebração junta folias, bonecões, congadas, moçambiques e a distribuição de comida, caso do afogado, um cozido de carne servido à população. As bandeiras vermelhas espalhadas pela cidade transformam o visual do centro histórico durante o período de festejos.
Goiás
Em Pirenópolis e em outras cidades de Goiás, a Festa do Divino vem acompanhada das cavalhadas, com seus combates entre mouros e cristãos e seus mascarados. As folias do Divino circulam pela zona rural durante semanas antes do dia principal da celebração.
Maranhão
Em Alcântara, São Luís e outras cidades do Maranhão, a festa carrega forte influência afro-brasileira e também é celebrada dentro de terreiros de tambor de mina. As caixeiras, responsáveis por tocar caixas e cantar versos tradicionais, conduzem os rituais, enquanto o império reúne crianças vestidas com esmero.
Santa Catarina
No litoral de Santa Catarina, comunidades descendentes de açorianos conservam festejos com bandeiras, coroas de prata e cortejos de imperadores, mantendo traços muito semelhantes aos das celebrações realizadas nos Açores.
Significado cultural
A Festa do Divino homenageia a presença do Espírito Santo e valores como abundância, generosidade e igualdade. A escolha de um imperador dentro da própria comunidade e a oferta de comida a todos representam um momento de fartura compartilhada, em que as desigualdades sociais ficam temporariamente de lado.
A festa revela, ainda, como uma tradição vinda de Portugal foi recriada no Brasil por grupos distintos. Em Minas Gerais e Goiás, ela se conecta às cavalhadas e congadas; no Maranhão, às religiões de matriz africana; em Santa Catarina, à herança açoriana — formando, assim, um conjunto diverso de expressões de fé.
Curiosidades
- Por depender da data da Páscoa, a Festa do Divino cai em dia diferente todos os anos, sempre cinquenta dias após o domingo pascal.
- Em algumas localidades, acredita-se que a passagem da bandeira do Divino protege a casa e a plantação durante todo o ano.
- No Maranhão, as caixeiras do Divino passam seus cantos e toques de caixa de geração em geração, principalmente entre as mulheres.
- A coroa usada na celebração costuma ser uma peça antiga de prata, preservada com muito zelo pela comunidade.
Fontes de referência
- Carlos Rodrigues Brandão, O Divino, o Santo e a Senhora (1978)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
- Carlos Rodrigues Brandão, Cavalhadas de Pirenópolis (1974)
Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.
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