Criatura · Conhecida em todo o país

Curupira

Também conhecido(a) como Currupira, Corupira e Pai do Mato

Protetor da floresta com pés voltados para trás e cabeleira cor de fogo, que desnorteia caçadores e lenhadores que maltratam a mata e seus animais.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

O Curupira figura entre as entidades mais antigas já registradas em território brasileiro. Em 1560, numa carta escrita em São Vicente, o padre José de Anchieta já citava os curupiras como seres temidos pelos nativos, que chegavam a ser atacados por eles no interior da mata, e relatava o costume de deixar oferendas em determinados trajetos para apaziguá-los. Esse testemunho comprova que a crença já circulava com força entre povos falantes de tupi antes mesmo de a colonização se firmar.

A origem do nome costuma ser atribuída ao tupi, havendo diferentes hipóteses que o relacionam a um corpo de menino ou a um habitante da mata, sem que exista consenso fechado entre os especialistas. Já no século XIX, pesquisadores como Couto de Magalhães, em O Selvagem, e Barbosa Rodrigues, na Poranduba Amazonense, documentaram narrativas da região amazônica sobre o Curupira, várias delas coletadas em nheengatu, língua geral de base tupi.

Com o passar do tempo, a crença se difundiu por quase todo o país, ganhando roupagens regionais próprias. Em diversas localidades ela se mistura ou se aproxima da Caipora, e Câmara Cascudo chegou a dedicar trechos de Geografia dos Mitos Brasileiros à tarefa de diferenciar e comparar as duas tradições, que compartilham o papel de zelar pela mata.

Descrição

Na versão mais conhecida, o Curupira tem baixa estatura, aparência de criança ou de homem pequeno, cabelos vermelhos como brasa e, sua marca mais famosa, os pés invertidos. Essa característica faz com que suas pegadas indiquem o sentido contrário ao que ele realmente segue, enganando quem tenta rastreá-lo e fazendo com que caçadores se percam nas profundezas da mata.

A tradição afirma que ele é o guardião das árvores e dos bichos do mato. Castiga quem caça por pura maldade, mata fêmeas prenhes ou filhotes, ou derruba árvores sem motivo real. Seu recurso preferido é confundir a vítima: o caçador passa a andar em círculos, escuta gritos e assobios vindos de todos os cantos e só retorna para casa quando o próprio Curupira resolve soltá-lo. Algumas narrativas afirmam que ele imita vozes conhecidas para atrair quem se aproxima.

Também se conta que o Curupira golpeia os troncos das árvores para checar sua resistência antes da chegada de tempestades, e que o som seco escutado na mata seria resultado dessa ação. Para escapar de seus truques, recomenda-se enrolar um pedaço de cipó em uma bola bem apertada, escondendo a ponta, pois a curiosidade o levaria a tentar desfazer o nó. Presentear com fumo, cachaça ou mingau também é citado como maneira de ganhar sua boa vontade.

Características

  • Possui os pés invertidos, que deixam rastros enganosos
  • Tem cabelos vermelhos, parecidos com chamas
  • É de estatura baixa e se parece com um menino
  • Defende os animais e as árvores da mata
  • Confunde caçadores com assobios e ilusões sonoras
  • Testa a firmeza dos troncos com golpes
  • Entretém-se tentando desatar novelos de cipó

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Norte

Nos relatos coletados na região amazônica, o Curupira pode mostrar-se tanto ameaçador quanto generoso. Existem histórias em que ele devora quem se perde na mata e outras em que negocia com caçadores, garantindo boa caçada em troca de sigilo ou de oferendas. Porém, quem descumpre o acordo sofre punições severas. Boa parte desses registros vem de autores do século XIX que recolheram depoimentos em nheengatu.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

O Curupira costuma ser lido como manifestação da ética indígena de relação com a floresta. Suas aventuras transmitem a ideia de que a natureza possui donos e defensores, que a caça precisa ser moderada e que o exagero será punido. Por essa razão, o personagem segue sendo mencionado em iniciativas de educação ambiental.

A inversão dos pés pode ser entendida como metáfora da própria lógica da floresta, que confunde quem não a conhece e cobra saber e respeito de quem nela se aventura. A figura também evidencia de que forma conhecimentos indígenas sobre o território foram passados adiante e reinterpretados por caboclos e populações do interior ao longo das gerações.

Curiosidades

  • O relato do padre José de Anchieta, de 1560, está entre os registros escritos mais antigos sobre uma figura do folclore nacional.
  • Em certas localidades, comemora-se o Dia do Curupira em 17 de julho, associado à preservação das florestas.
  • A imagem do Curupira já foi usada como mascote em campanhas contra queimadas florestais.
  • A característica dos pés invertidos também aparece em outros seres de tradições sul-americanas, sugerindo origens bastante antigas.

Fontes de referência

  1. José de Anchieta, Carta de São Vicente (1560)
  2. José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem (1876)
  3. Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)
  4. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  5. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

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