Personagem · Conhecida em todo o país
Saci-Pererê
Também conhecido(a) como Saci, Saci-Cererê, Matimpererê, Saci-Trique e Saçurá
Garoto de uma perna só, boina vermelha e cachimbo, que desce em redemoinhos para pregar peças, embaralhar crinas de cavalos e despistar quem atravessa a mata.
Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.
Origem
Entre todas as figuras do folclore nacional, o Saci-Pererê talvez seja a que resume melhor a fusão de três matrizes culturais diferentes. Pesquisadores apontam uma origem indígena, de base tupi-guarani, relacionada a um espírito do mato ou a uma ave de canto difícil de localizar. Ainda hoje, em diversas localidades, o pássaro que os ornitólogos chamam de Tapera naevia recebe o nome popular de saci, exatamente por seu assobio enigmático, que parece ecoar de todas as direções ao mesmo tempo.
Ao longo do tempo, outras camadas foram se somando. A presença africana, herdada da população escravizada, deu ao saci a pele escura, a agilidade e o espírito brincalhão; já a herança europeia trouxe o gorro vermelho, peça que lembra os duendes e trasgos de lendas ibéricas, nos quais a magia também residia no próprio barrete. O hábito de fumar cachimbo, comum no meio rural, acabou completando o retrato que se tornaria o mais conhecido.
A fama em escala nacional veio nas primeiras décadas do século XX. Monteiro Lobato publicou, em 1918, o livro O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, no qual reuniu relatos enviados por leitores de diferentes partes do país a um jornal paulista. Depois disso, o personagem passou a protagonizar aventuras no Sítio do Picapau Amarelo, o que consolidou sua presença na memória de sucessivas gerações de leitores brasileiros.
Descrição
De acordo com o imaginário popular, o Saci é um menino de pele escura, com apenas uma perna, gorro vermelho na cabeça e cachimbo sempre na boca. Movimenta-se em saltos de velocidade impressionante e, em muitos relatos, viaja escondido dentro dos redemoinhos que levantam poeira e folhas secas pelas estradas rurais. Conta-se que ele surge do nada e desaparece da mesma forma, deixando apenas um silvo agudo e uma risada de zombaria no ar.
As travessuras ocupam o centro de boa parte das histórias contadas sobre ele. O Saci costuma sumir com utensílios da casa, deixar a refeição queimar, virar o leite azedo, embaraçar o fio de costura e espantar os bichos do quintal. É especialmente associado ao hábito de montar cavalos de madrugada e amarrar suas crinas em nós difíceis de desfazer, de modo que os animais amanhecem exaustos e cobertos de suor. Também se diz que viajantes que se perdem pelas veredas do mato costumam atribuir a culpa a esse pequeno bagunceiro.
Diz-se que toda a força do Saci está concentrada em seu gorro vermelho. Segundo a crença, quem conseguir arrancar essa peça da cabeça dele passa a comandá-lo, pois ele fará de tudo para reavê-la. Outro método tradicional para capturá-lo consiste em lançar uma peneira trançada de taquara sobre o redemoinho onde ele viaja, prendendo-o depois dentro de uma garrafa bem fechada. Já para mantê-lo afastado, recomenda-se deixar à vista um rosário ou qualquer objeto repleto de nós, já que ele não resistiria à tentação de desamarrá-los.
Características
- Possui apenas uma perna e locomove-se aos saltos
- O gorro vermelho concentra toda a sua força
- Fuma cachimbo e costuma pedir fumo a quem passa
- Desloca-se escondido dentro dos redemoinhos
- Amarra as crinas dos cavalos durante a madrugada
- Faz pequenas travessuras e some com objetos da casa
- Pode ser capturado com o uso de peneira e garrafa
Versões da história
Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:
Norte e interior do Sudeste
Em relatos de raiz indígena, o saci surge menos como um menino e mais como uma presença do mato ligada a uma ave de assobio intrigante. Esse canto confunde caçadores e andarilhos, que não conseguem identificar de onde ele vem. No norte do país, essa ideia se aproxima da Matinta-Perera, outra figura ligada a um pássaro de mau agouro e a pedidos de fumo.
Sudeste
Classificações populares colhidas no interior de São Paulo e Minas Gerais descrevem tipos distintos de saci. O Pererê, de pele escura, seria o mais famoso; o Trique teria tom mais claro e temperamento ainda mais brincalhão; e o Saçurá, de olhos vermelhos, seria o mais temido entre todos. Essas diferenças mudam de localidade para localidade, prova de como a oralidade multiplica detalhes de uma mesma figura.
Sudeste e Centro-Oeste
Em certas comunidades, afirma-se que os sacis nascem no interior dos gomos de bambu, onde permanecem em formação por sete anos. Depois disso, viveriam por cerca de setenta e sete anos, e ao chegar ao fim da vida se converteriam em cogumelos venenosos ou em orelhas-de-pau. Essa variante reforça o vínculo do personagem com os ciclos da floresta.
Significado cultural
É comum interpretar o Saci como representação da própria formação do povo brasileiro, já que concentra em uma só figura traços indígenas, africanos e europeus. Sua malícia e sua habilidade de escapar dos mais poderosos também costumam ser lidas como uma forma bem-humorada de resistência, principalmente dentro de um contexto rural cheio de desigualdades.
No dia a dia das comunidades, as histórias sobre o Saci davam conta de pequenos contratempos, como pertences extraviados, comida que se estragava ou animais agitados, além de reforçar o cuidado com o mato e com a noite. Mais recentemente, o personagem passou a ser celebrado como símbolo de identidade nacional, em oposição a figuras estrangeiras associadas a outras festividades.
Curiosidades
- A pesquisa conduzida por Monteiro Lobato em 1918 é vista como um dos primeiros levantamentos de folclore realizados com a colaboração direta do público, por meio de um jornal.
- Alguns municípios e estados instituíram o Dia do Saci em 31 de outubro, pensado como alternativa brasileira ao Halloween.
- O nome popular saci também é usado para a ave Tapera naevia, justamente pelo canto difícil de localizar.
- O personagem ficou ainda mais conhecido graças às adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo.
Fontes de referência
- Monteiro Lobato, O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (1918)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
- Monteiro Lobato, O Saci (1921)
Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.
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