Personagem · Conhecida em todo o país

Iara

Também conhecido(a) como Uiara, Yara, Mãe-d'Água e Mãe dos Rios

Mulher encantada que, segundo a tradição, canta à beira dos rios para atrair homens e arrastá-los para as profundezas, de onde poucos retornam.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

Costuma-se explicar o nome Iara a partir do tupi, como “senhora das águas”. Entretanto, os primeiros cronistas da época colonial descreviam, entre os povos litorâneos, uma criatura aquática bem distinta: o Ipupiara, um homem-marinho temido que atacava pescadores. Nada naqueles relatos antigos remetia à sereia bela e sedutora que hoje se associa a esse nome.

Luís da Câmara Cascudo sustentou que a Iara conhecida atualmente nasceu do cruzamento entre crenças indígenas sobre espíritos aquáticos e a tradição europeia das sereias e mouras encantadas, trazida por colonizadores portugueses. Também africanos escravizados deixaram sua marca, contribuindo com divindades das águas que reforçaram a imagem de uma mãe-d’água feminina e temível.

Foi no romantismo do século XIX que a personagem se consagrou de fato, quando escritores buscavam nas tradições indígenas símbolos para a nação. Poetas e romancistas fixaram a imagem da jovem de longas tranças que canta junto ao rio, e essa versão se propagou por livros didáticos até se tornar uma das figuras mais conhecidas do folclore nacional.

Descrição

Diz a tradição que a Iara é uma mulher de rara formosura, de cabelos longos — negros ou esverdeados — e olhar brilhante, que mora nas profundezas de rios e lagos. Dependendo do relato, tem corpo de peixe da cintura para baixo, à maneira das sereias europeias; em outras versões, é totalmente humana. Costuma surgir ao fim da tarde, sentada sobre pedras, penteando os cabelos enquanto canta.

Segundo quem conta a lenda, seu canto não tem como ser resistido. Pescadores, caçadores e jovens que passam pela margem ficam como que enfeitiçados e caminham rumo à água, onde a Iara os enlaça e os leva para o fundo. Alguns jamais retornam; outros reaparecem dias depois, mas voltam perturbados, falando sós e ansiando por voltar ao rio.

Em muitos lugares, recomenda-se que os homens não permaneçam sozinhos nas margens ao entardecer e não atendam a vozes femininas que venham das águas. Somente um pajé ou benzedor seria capaz de romper o feitiço de quem ficou “mundiado” pela mãe-d’água.

Características

  • Mulher de extraordinária beleza e cabelos longos
  • Em diversas versões apresenta corpo de peixe
  • Possui canto capaz de hipnotizar quem escuta
  • Surge sobre pedras à beira-rio ao entardecer
  • Arrasta suas vítimas para o fundo das águas
  • Quem escapa de seu encanto fica perturbado

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Amazônia (versão popularizada)

Segundo uma versão bastante conhecida, Iara era uma índia guerreira de tamanha habilidade que provocou a inveja dos irmãos. Eles tentaram eliminá-la, mas ela reagiu e terminou matando-os. Em castigo, o próprio pai a lançou no encontro das águas, e os peixes a resgataram, convertendo-a em sereia. Estudiosos consideram essa versão uma elaboração relativamente moderna.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

A Iara dá forma ao fascínio e ao risco que envolvem as águas, capazes de alimentar e de servir de caminho, mas também de afogar e devorar. A figura ajuda a ensinar às gerações mais novas a importância de ter cautela com rios, correntes e lagoas, principalmente quando a luz é escassa.

Para estudiosos do folclore, ela também ilustra bem como as tradições brasileiras se formam por mistura: traços indígenas, europeus e africanos se combinaram numa personagem que o romantismo transformou em emblema nacional. A trajetória da Iara revela como essas histórias permanecem vivas e seguem se transformando com o tempo.

Curiosidades

  • Gonçalves Dias, entre outros poetas do romantismo, dedicou versos à mãe-d’água, contribuindo para difundir a figura.
  • A partir do século XX, Iara se tornou um nome próprio feminino bastante comum no Brasil.
  • A cauda de peixe é herança da tradição europeia das sereias; muitos relatos orais descrevem a Iara com corpo totalmente humano.
  • Figuras parecidas aparecem em outras lendas brasileiras sobre encantadas das águas, caso da Alamoa, associada à ilha de Fernando de Noronha.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem (1876)
  4. Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

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