Festa / tradição · Local

Festival Folclórico de Parintins

Também conhecido(a) como Boi-bumbá de Parintins, Festival de Parintins e Garantido e Caprichoso

Confronto entre Garantido e Caprichoso na ilha de Parintins (AM), espetáculo de grande porte que exalta lendas e povos amazônicos.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

O boi-bumbá desembarcou na Amazônia junto com a migração de nordestinos — principalmente maranhenses, cearenses e paraibanos — atraídos pela economia da borracha entre fins do século XIX e início do XX. Na região, esse folguedo do boi se misturou à cultura cabocla e indígena e foi se reinventando. Em Parintins, município erguido numa ilha do rio Amazonas, surgiram ainda nas primeiras décadas do século XX os dois bois que passariam a comandar a vida cultural local: Garantido e Caprichoso.

Por muito tempo, os dois bois se apresentavam pelas ruas, e os encontros entre eles às vezes resultavam em conflitos. Nos anos 1960, a comunidade decidiu criar um festival capaz de concentrar as apresentações em um só espaço, com regulamento e julgadores. O evento foi crescendo nas décadas seguintes até ganhar sede própria, o Bumbódromo, inaugurado perto do final dos anos 1980.

Conforme se expandiu, o festival começou a ser levado pela televisão, passou a atrair visitantes de todo o Brasil e tornou-se motor da economia local, recebendo milhares de turistas que chegam majoritariamente por via fluvial. As toadas ganharam reconhecimento nacional, e os artistas da ilha passaram a ser referência na criação de alegorias de grande escala.

Descrição

A disputa ocorre no último fim de semana de junho, distribuída em três noites. Em cada uma delas, o Garantido — de cor vermelha e emblema do coração — e o Caprichoso — de cor azul e emblema da estrela — se apresentam por aproximadamente duas horas e meia dentro da arena do Bumbódromo. Uma comissão avalia várias dezenas de quesitos, e vence o boi que somar a maior pontuação.

Cada noite de apresentação reúne teatro, dança, música e artes plásticas em um só espetáculo. Alegorias de grande porte, equipadas com mecanismos elaborados, dão forma a serpentes, aves, espíritos da floresta e cerimônias indígenas. As toadas, criadas especialmente para cada edição, são cantadas pelo levantador de toadas e sustentadas pela batucada do Garantido ou pela marujada do Caprichoso, formações com centenas de percussionistas.

O público também entra na disputa. A galera — torcida de cada agremiação — canta e se movimenta em coreografia durante toda a apresentação, sendo igualmente pontuada pelos jurados. Segundo o costume, a torcida do boi adversário deve permanecer calada enquanto o outro se apresenta, em gesto de respeito. A cidade toda se divide entre vermelho e azul, a ponto de comércios adaptarem suas cores conforme a rivalidade.

Características

  • Disputa acirrada entre Garantido (vermelho, coração) e Caprichoso (azul, estrela)
  • Três noites de espetáculo no Bumbódromo, ao final de junho
  • Quesitos avaliados que incluem apresentador, levantador de toadas, amo do boi e sinhazinha da fazenda
  • Papéis femininos de destaque, caso da cunhã-poranga, da porta-estandarte e da rainha do folclore
  • Encenação de pajé e de rituais indígenas apoiada em alegorias monumentais
  • Toadas conduzidas pela batucada ou pela marujada, com participação ativa da galera
  • Enredos baseados em lendas da Amazônia e no cotidiano das comunidades ribeirinhas

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Parintins (AM), Baixa do São José

O Garantido tem raízes na Baixa do São José, bairro popular da cidade, e se reconhece pelo coração vermelho estampado na testa do boi. Seus adeptos costumam valorizar o vínculo do boi com as origens populares e com o terreiro onde nasceu. Seu conjunto percussivo é batizado de batucada.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Com o passar do tempo, o festival converteu o antigo auto do boi em uma celebração da identidade amazônica. A narrativa de morte e ressurreição do boi passou a compartilhar espaço com a valorização dos povos indígenas, das lendas da mata e da vida cabocla, e o espetáculo se tornou também palco para discutir preservação ambiental e diversidade cultural.

Para quem vive em Parintins, torcer pelo Garantido ou pelo Caprichoso é herança que passa de geração em geração, carregada de afeto. A montagem do festival emprega artistas, costureiras, ferreiros, compositores e dançarinos durante praticamente o ano todo, o que torna a festa também um relevante espaço de formação artística e geração de trabalho na região.

Curiosidades

  • Vários artistas formados nos barracões de Parintins migraram depois para escolas de samba e grandes produções em outras regiões do país.
  • Manter-se em silêncio enquanto o boi rival se apresenta é uma das regras de conduta mais respeitadas durante o festival.
  • Figuras de lendas como a Cobra-Grande, o Boto e a Iara costumam aparecer nas alegorias de ambos os bois.
  • É comum, em Parintins, que os torcedores evitem citar o nome do time adversário, preferindo chamá-lo apenas de “o contrário”.

Fontes de referência

  1. Sérgio Ivan Gil Braga, Os Bois-Bumbás de Parintins (2002)
  2. Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  4. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, estudos antropológicos sobre o boi-bumbá de Parintins (anos 2000)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

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