Criatura · Conhecida em todo o país

Boitatá

Também conhecido(a) como Baetatá, Mboitatá, Biatatá, Batatão e Fogo-corredor

Cobra luminosa de olhos reluzentes que desliza pelos campos durante a noite, às vezes defendendo a mata do fogo, às vezes assombrando quem a encontra pelo caminho.

Comparar versões

Isto é uma narrativa de tradição oral. Em primeiro lugar, vale explicar que o conteúdo abaixo pertence ao conjunto de lendas do folclore brasileiro, repassadas de boca em boca entre gerações. Por isso, interprete cada passagem como parte do imaginário e das crenças populares que formam o patrimônio cultural do país — e não como um fato apurado por pesquisa histórica. Logo mais adiante, você vai encontrar 3 versões diferentes dessa mesma história, organizadas uma após a outra.

Origem

O termo Boitatá tem origem tupi e costuma ser explicado pela junção de mboî, que significa cobra, e tatá, fogo, resultando na expressão cobra de fogo. O padre José de Anchieta, na mesma carta escrita em São Vicente em 1560 em que fala dos curupiras, menciona os baetatás, descritos como fachos de fogo que percorriam os campos e amedrontavam os indígenas. É, portanto, uma das crenças mais antigas já registradas no Brasil.

A imagem de chamas que se movem sozinhas durante a noite encontra equivalente nos chamados fogos-fátuos, luzes geradas pela combustão espontânea de gases em pântanos e cemitérios, fenômeno também conhecido na Europa e cercado de narrativas próprias. Com a colonização, tradições indígenas e europeias sobre essas luzes misteriosas se combinaram, originando versões variadas do Boitatá conforme a região.

No Rio Grande do Sul, a lenda ganhou uma de suas formas literárias mais famosas pela pena de João Simões Lopes Neto, que a publicou em Lendas do Sul, em 1913. Nessa versão, o Boitatá surge ligado a um grande dilúvio e a uma noite sem fim, e sua luminosidade viria dos olhos dos animais mortos que ele teria devorado.

Descrição

Segundo a tradição, o Boitatá é uma cobra gigantesca e luminosa, de olhos grandes e brilhantes, que percorre campos, várzeas e bordas de mata durante a noite. Quem o avista de longe nota apenas uma luz que corre rente ao solo, muda de rumo de repente e some sem deixar vestígios. Por isso, muitos relatos populares o descrevem como uma chama que se desloca ou um facho que persegue quem passa por ali.

Na versão gaúcha reunida por Simões Lopes Neto, narra-se que, após uma chuva prolongada e uma escuridão que parecia não ter fim, uma grande quantidade de animais morreu. Uma cobra-grande, que acabara de despertar de seu sono, passou a devorar apenas os olhos dos bichos mortos, onde ainda restava um pouco da luz do sol. Com tanto olho consumido, seu corpo foi se tornando transparente e luminoso, até enfraquecer e morrer, deixando um espírito de luz a vagar pelos campos.

O papel atribuído ao Boitatá varia conforme a localidade. Em muitos lugares, é considerado defensor das matas e dos campos, castigando quem provoca queimadas ou degrada a natureza, podendo até cegar ou enlouquecer os responsáveis. Em outros, é apenas uma assombração temida. A tradição recomenda que, ao se encontrar com ele, a pessoa permaneça imóvel, feche os olhos e contenha a respiração, já que ele seria atraído pelo movimento.

Características

  • Cobra luminosa que desliza rente ao solo
  • Possui olhos enormes e brilhantes
  • Surge à noite em campos, várzeas e beiras de mata
  • Em diversas versões, protege a mata contra o fogo
  • Seria atraído pelo movimento de quem o observa
  • Relaciona-se aos fogos-fátuos vistos em pântanos e cemitérios

Versões da história

Assim como ocorre com qualquer relato passado de boca em boca, esta história ganha contornos diferentes dependendo de quem a narra e de onde ela é contada. Veja, nos quadros a seguir, as formas mais conhecidas dela:

Sul

Na versão gaúcha divulgada por Simões Lopes Neto, o Boitatá nasce de uma tragédia: depois de um dilúvio extenso e de uma noite sem fim, uma cobra-grande devora os olhos dos animais mortos, que conservavam resquícios de luz. Seu corpo passa a brilhar, e ela segue vagando pelos campos como uma luminosidade fria e errante.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

O Boitatá representa uma tentativa poética de explicar fenômenos luminosos reais observados durante a noite, como os fogos-fátuos, atribuindo-lhes forma e personalidade. Ao mesmo tempo, sua relação com o fogo e com a defesa da mata faz dele um símbolo da ligação entre as comunidades do campo e a paisagem, principalmente onde as queimadas eram prática frequente.

A mistura de influências indígenas, europeias e da literatura regional gaúcha evidencia como uma mesma figura pode carregar significados distintos: alerta contra a destruição ambiental, assombração vinculada aos mortos ou lembrança de um tempo mítico marcado por catástrofes.

Curiosidades

  • A citação de Anchieta aos baetatás, em 1560, é um dos registros mais antigos de uma entidade do folclore brasileiro.
  • O nome Boitatá costuma ser traduzido, a partir do tupi, como cobra de fogo.
  • O Boitatá já apareceu em obras literárias, quadrinhos e produções audiovisuais inspiradas no folclore nacional.
  • Luzes errantes em áreas alagadas também são relatadas em outras partes do mundo e deram origem a lendas semelhantes na Europa.

Fontes de referência

  1. José de Anchieta, Carta de São Vicente (1560)
  2. João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (1913)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  4. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)

Este material foi escrito com base nas fontes bibliográficas listadas acima, que reúnem o que já se sabe sobre o folclore brasileiro. Caso você identifique algum erro ou conheça uma versão diferente para esta lenda, mande sua sugestão por aqui.

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